Mais um dia surgiu. Devo dizer que adorei essas mudanças... Ainda
nem acredito que meu desejo se realizou!
Acordei bem cedo nessa segunda feira... Amy ainda não iria
para a aula. Usaremos essa semana para ensinar tudo o que ela precisa saber.
Fico feliz em poder ensinar a ela como se virar no mundo. Mas do mesmo jeito...
não quero que ela tenha que viver longe de nós. Sinto que meus pais estão
apenas ensinando a ela viver para que ela possa ir para longe sem preocupações. Mas de qualquer jeito, me ajeitei para ir
para a escola.
Ao chegar lá, tive a mesma rotina chata de sempre: Estudar,
estudar, conversar com pessoas que não dão a mínima, estudar. Estava sentindo
falta da Amy. O que ela estava fazendo agora? Provavelmente ainda dormindo.
Enfim, a manhã passou lentamente enquanto eu pensava em uma
forma de ensinar a Amy matéria de vários anos, até que a aula finalmente
acabou.
Abri a porta de casa e recebi algo inesperado. Amy saltou em
cima de mim em um abraço apertado.
- Sempre quis fazer isso! – Disse enquanto ria.
Não pude fazer nada a não ser abraçar de volta. Foi meio que
um instinto.
- Oi para você também! – Falei sorrindo.
- Ah sim! – Falou enquanto me soltava. – Seus pais já saíram
para trabalhar e sua irmã já foi pro colégio. Eles deixaram a nossa comida
pronta ali em cima.
Concordei e fomos até a mesa. Dei uma breve explicação do que
um suco é e ela novamente observou tudo com uma verdadeira concentração.
Enquanto comíamos, outra pergunta surgiu em minha mente.
- Amy?
-Hm? – Olhou para mim largando os talheres em cima do prato.
- Você sempre esteve consciente enquanto era uma cachorrinha
de pelúcia?
- Sim. – Falou enquanto sorria levemente. – Tanto que contei
tudo o que sabia sobre você desde quando nós éramos crianças.
Corei levemente ao pensar que ela sabia tanto assim sobre
mim. Mas fiquei feliz. Alguém me conhecia e me entendia.
- Por que? – Ela me perguntou.
- Ah... nada não – Falei um pouco distraído. – Só estava
curioso mesmo. Fico feliz que a Amy sempre esteve aqui.
Ela riu.
- Estou com você há 14 anos, Ryu! Mas só agora pude
finalmente falar com você.
- Caramba... então você tem 14 anos?
- Acredito que sim. – Disse com um sorriso.
Conversamos por mais alguns minutos até que terminamos de
almoçar. Estava com preguiça de tirar o uniforme. Como o que passou a ser
costume, subimos para o meu quarto e resolvemos começar a estudar para que ela pudesse
ir para a escola na semana seguinte. Estudamos desde matemática básica até
física em cima da grande cama. Resolvemos manter o dia de hoje para estudar
exatas. Mas então depois de uma hora e meia de estudos e exercícios, o sono
começou a bater. Resolvemos tirar um tempo para dormir.
O tempo passou... passou... até que eu acordei, mas fiquei
com pena de me mover. Ela estava dormindo tão tranquilamente... Olhando com
atenção, ela tinha até uma aparência infantil. Cativante... tanto que prendeu
meu olhar por segundos, minutos, horas... não sei bem ao certo.
O resto da semana seguiu essa rotina. Amy estava aprendendo
tudo muito rápido, como sempre. Meus pais pareciam cada dia mais insatisfeitos
com a nova moradora da casa.
Na sexta-feira, um dos professores anunciou que uma nova
menina iria entrar na nossa turma. Todos ficaram comentando uns com os outros
quem seria essa nova aluna que entraria apenas nas terceira semana de aula. Eu
sabia exatamente quem era e estava ao mesmo tempo em que animado por ter uma
companhia como a da Amy a manhã inteira, estava um pouco preocupado de como ela
reagiria com a escola... tem muita gente em muito pouco espaço.
Enfim cheguei em casa depois da aula e resolvi fazer uma
coisa nova.
- Amy! – Falei logo depois do almoço. – Você sabe o que é um
cinema?
- Já ouvi alguém falando há muito tempo atrás... mas não sei
o que é...
- Nós iremos hoje à tarde. – Disse em meio a um sorriso. – Você
precisa se acostumar a lugares com bastante gente. É um lugar onde passam
filmes!
- Parece ser divertido! Assisti alguns desses filmes na
televisão durante essa semana.
E continuamos a ter uma conversa casual por mais algum tempo,
até que pegamos nossas bicicletas e fomos até o shopping. Ela reclamou por ter
que entrar no shopping de novo, mas então disse o cinema ficava dentro daquele
estabelecimento. Ela ficava bonitinha até mesmo quando estava nervosa.
Assim que entramos, ela se pendurou em minha cintura. Ainda
não estava acostumada a ver outras pessoas. Quem visse a cena pensaria outra
coisa. Mesmo que poderia parecer coisas erradas, é impossível resistir a
retribuir o mesmo afeto. Ela precisava de proteção, pelo menos até se acostumar
com lugares cheios de gente feia encarando umas as outras.
Estava gostando de levar Amy ao cinema... não me pergunte por
que. É normal levar uma ex-cachorrinha de pelúcia ao cinema, tá bom?
Assim que entramos na sala do filme,
ela se sentiu mais a vontade. Era um local escuro, portanto não podia nem ver
direito quantas pessoas tinham. Assistimos a um filme de comédia romântica. Ela
pode entender um pouco mais de como o nosso mundo funciona, mas pude perceber
que ela não sabia nada sobre relações com outras pessoas. Ela permanecia com um
ar de curiosidade quando o casal se relacionava, mas parecia achar aquilo
normal.
- Podemos fazer igual a aquelas duas
pessoas do filme? – Ela perguntou com naturalidade.
- Ahn... – Fui pego totalmente desprevenido.
– Acho que qualquer pessoa que sentir uma coisa especial desse tipo por
outra... e vice-versa... podem se beijar e essas coisas...
- Eu acho que sinto essa coisa
especial por você, Ryu.
“O que? Ela? A minha ex-cachorrinha
de pelúcia diz esse tipo de coisa pra mim? E com a maior naturalidade? O que eu
faço? Ela é...”
Não pude terminar minha linha de
pensamento. Fui interrompido pelo seu risinho.
- Sua cara tá estranha Ryu. – Falou com
um sorriso. – Não há problema em dizer esse tipo de coisa, né?
- Ah... bom... acho que não... –
Falei totalmente hesitante. – Na verdade fico feliz em saber.
Ela pareceu se iluminar. Mas eu não
poderia dizer mais nada... não por enquanto. Nem sei o que dizer, na verdade.
Depois que saímos do shopping ela
parecia muito mais solta para andar em lugares com mais gente. Ela parecia ter
descoberto alguma coisa nova... Será que tinha a ver com filme?
Logo chegamos em casa e continuamos a
estudar. O resto do final de semana foi assim. Não me importo em estudar a
semana inteira e ainda ter que rever conteúdos que eu já estudei a muito tempo
atrás. Gosto de ver Amy aprendendo sobre o nosso mundo.
Era domingo a noite, o dia anterior
ao primeiro dia de aula da Amy, quando ao invés de ela dormir quase instantaneamente,
ela ficou me encarando, com o rosto muito próximo ao meu.
- Você está nervosa pra amanhã? –
Falei em um tom baixo.
- Um pouco... mas você vai estar lá,
não vai?
- Com certeza! Quero estar por perto
o tempo inteiro.
- Obrigada. – Amy disse sorrindo. –
Fico mais tranquila assim.
Beijei sua bochecha e ela ficou
espantada com a atitude. Depois de ver aquele filme no cinema, parece que ela
começou a interpretar certas ações de jeitos diferentes. Fico feliz, pois
parece que ela interpretou a minha do jeito que tinha que ser interpretada. O
espanto foi substituído por um olhar caloroso.
- Boa noite Ryu.
Amanhã seria o primeiro dia de aula
para Amy. Não era só ela que estava ansiosa para isso...

Nenhum comentário:
Postar um comentário