Essa
história é complicada de ser contada... é difícil saber por onde começar. Complicada
de ser contada por ser inacreditável. Acho melhor começar contando como era
minha vida antes do mais recente acontecimento, que mudou tudo. Eu não tinha
quase nenhum amigo e os únicos que tinha sempre estavam ocupados com suas
outras atividades, sempre me deixando em segundo plano. Não que eu já esteja
acostumado com isso... sempre foi assim e não me surpreende. Então, na primeira
sexta feira de aula, o dia não foi diferente. Tenho um monte de conhecidos, mas
nenhum é realmente íntimo. Nenhum realmente sabe o que eu realmente passei ou o
que eu realmente passo. Posso conversar normalmente com várias pessoas, mas
nenhuma está interessada em mim realmente.
Antes que vocês pensem coisas
erradas sobre mim, eu tenho 15 anos e durmo com meu cachorrinho de pelúcia sim,
mas sou hetero. Mas como estava falando, foi na noite dessa sexta feira que
tudo começou a mudar. Foi nessa noite quando eu desejei o que mudaria minha
vida para sempre. Pode parecer idiota de primeira vista, realmente.
Eu estava deitado em minha cama à
noite, prestes a dormir. Foi então que olhei para meu cachorrinho de pelúcia
que tenho desde quando tinha um ano e desejei a coisa mais estranha possível:
“Como gostaria que você fosse um humano como eu... para poder
gostar mesmo de mim.”
Fiquei encarando os olhinhos pretos dele... não que eu
esperava que algo acontecesse, mas fiquei ali, olhando. Depois de mais ou menos
trinta segundos, resolvi cobrir ele com meu lençol e pouco tempo depois peguei
no sono.
No dia seguinte, levantei rapidamente da cama para desligar
o despertador. E foi aí que me deparei
com ela.
- O QUE É ISSO!? DE ONDE VOCÊ VEIO? – Gritei.
-Ué! Você desejou que eu virasse humana! Aqui estou! – Falou em
um tom alegre, ainda sorrindo. – Só nunca entendi o porquê de você me chamar de
Kochi já que sou menina...
- Kochi...? Espere... KOCHI? – Comecei a olhar por todo o
quarto, mas foi aí que me dei conta – Você está pelada!
Fechei os olhos e virei para o lado contrário de onde aquela
figura estranha estava.
- Você desejou que eu me tornasse humana ontem, lembra? – Ela
riu levemente. – Eu também tinha esse desejo já faz muito tempo. Nossos desejos
se cruzaram e aqui estou!
- Cruzaram? – Me virei pra ela – Se cubra com o lençol!!
- Tem razão! – E fez uma cara de entendimento – Os humanos se
cobrem com panos esquisitos...
- Um cachorrinho de pelúcia não pode falar nada – Falei em
tom de brincadeira.
- Então você acredita mesmo em mim?
- Seus olhos... sinto que já os vi em algum lugar. E agora
faz sentido. Sempre me perguntei porque seus olhos enquanto pelúcia eram tão
expressivos!
Ela tomou uma expressão de alívio.
- Obrigada! Tive medo de que você não acreditasse em mim se
um dia meu desejo se tornasse realidade.
Eu acreditava que meu desejo mais forte tinha se tornado
realidade, mas mesmo assim, isso era uma coisa surreal demais para acontecer.
Ela tinha cabelos loiros compridos e olhos escuros. Nunca imaginava que meu
Kochi era uma menina...
-Tudo bem... mas agora temos que achar uma forma de explicar
isso para os meus pais.
Emprestei algumas roupas antigas minhas para ela. Não posso
negar que ela ficou engraçadinha com aquelas roupas. Então nos dirigimos até a
cozinha, onde meus pais estavam tomando café.
- Filho... Filho?? O que é isso? O que uma menina está
fazendo aqui? Ela dormiu com você?
- Não pai! Eu sei que é difícil de acreditar... mas o Kochi
na verdade se transformou nela. Ontem a noite eu desejei isso pai.
- Pare de inventar essas coisas! – Disse minha mãe.
- Eu posso provar que eu realmente era o Kochi! – Ela disse. –
Eu sei tudo sobre a família de vocês porque estou junto com o Ryu desde quando
ele tinha um ano!
Por incrível que pareça, ela sabia de tudo mesmo. Desde os
menores segredos até o mais comum. Sabia de todos os meus segredos. Até os que
meus pais não sabiam. Ela ficou por quase meia hora falando e discutindo com
meus pais. Eu intervia uma vez ou outra, mas a maior parte do tempo estava apreciando
o jeito que ela falava. Era um jeito fofo, devo dizer. Meus pais acabaram
vasculhando meu quarto inteiro, porque sabiam que eu não ia me livrar do Kochi
por nada para inventar alguma desculpa para ter uma namorada e por fim
aceitaram o fato de que algo inexplicável aconteceu.
- Ryuhei, venha aqui um pouquinho. – Meu pai falou. – Não temos
para onde levarmos ela, então devemos cuidar dela por enquanto. Se for mentira,
essa história não durará muito tempo. Se o que você diz é verdade, ela terá que
se sustentar sozinha um dia, e para isso, precisará de estudos, portanto, você
deve levar ela para a escola junto com você.
- Escola? Mas ela não sabe de nada! Como ela pretende entrar
no ensino médio sem nem saber nada sobre as outras pessoas ou sobre as
matérias?
- Bom, então tomaremos a semana que vem para ensinar o básico
para ela. Mas tome o dia hoje para comprar roupas para ela. Vou levá-los no
shopping hoje a tarde.
O almoço foi super tranquilo. Mesmo que tenha sido a primeira
vez que ela tinha comido alguma coisa.
- Incrível! Então é isso o que vocês sempre comem! – A cara dela
expressava uma real admiração.
- Vai se acostumando – Eu disse. – Você vai começar a comer
esse tipo de comida todos os dias.
- Se for assim, pra mim tá muito bom! – Ela falou sorrindo. –
Adorei essa comida.
Então meu pai nos levou até o shopping e nos deu uma
quantidade de dinheiro para comprarmos o necessário.
- Quanta gente! – Ela falou de um jeito tímido.
Quando uma pessoa que caminhava na direção contrária da nossa
se aproximou, ela se agarrou em mim com tanta força que quase me sufocou. Ela
estava com uma feição estranha... estava sinceramente nervosa. Ela abraçava com
muita força, mas não pude não gostar.
- Não gosto de lugares com tanta gente assim... – Ela disse
completamente preocupada.
- Tudo bem, mas vai ter que se acostumar! Na escola é ainda
pior.
Foi nessa ocasião que eu pude perceber o quanto ela era
baixinha em comparação a mim. Então depois do aviso a levei para um lugar mais
tranquilo do shopping e perguntei:
- Como posso chamar você...? Kochi?
- Hmmm... não me pergunte de onde eu tirei isso... mas eu me
chamo Amy.
- Amy? É um bom nome – Falei sorrindo.
Era tudo muito diferente... meu antigo companheiro
inseparável de infância agora se tornou a Amy. Minha mente ainda tinha milhares
de perguntas, mas resolvi fazer apenas uma dessa vez.
- E você se lembra de alguma coisa de quando você estava na
forma de cachorrinho de pelúcia?
- Hahaha claro! Me lembro de tudo! Me lembro de cada momento
que nós passamos juntos, de cada noite que dormimos juntos...
Não pude deixar de corar quando ouvi a última frase. Mas
fiquei satisfeito em ouvir aquilo tudo aquilo. Quem sempre me entendeu ainda
estava ali.
Então fomos comprar as roupas que ela precisava. Ensinei o
que precisava fazer para comprar, então deixei a escolher todas as roupas. Fomos
até os provadores e ela experimentou o primeiro conjunto.
- E aí? O que achou? É assim que as pessoas se vestem hoje em
dia?
Incrivelmente, mesmo não vivendo no mundo dos humanos, ela
tinha um ótimo gosto para roupas. Ela escolheu uma camiseta branca manga curta,
um vestidinho curto verde por cima e uma calça jeans... me surpreendeu.
- WOW! Tá incrível!
- Obrigada – Falou com animação – Fico feliz por saber pelo
menos isso.
Depois que pagamos todas as roupas, resolvi comprar um
sorvete para ela experimentar.
- Isso é engraçado – Ela sorriu. – Sorvete é bem geladinho.
- Haha isso é um doce comum aqui, que bom que você gostou.
- Realmente gostei – Então ela mudou para um tom mais
preocupado – Mas podemos ir embora? Não gostei muito de shopping...
- Tudo bem – Eu falei. – Vou ligar para o meu pai vir nos
buscar.
Pouco tempo depois, ele chegou e nos levou para casa. Quando
chegamos, a janta já estava pronta. Minha irmãzinha de 2 anos estava esperando
na mesa.
- Nossa! É a primeira vez que vejo sua irmãzinha tão de
perto, Ryu! – E começa a fazer caretas engraçadas. - Como ela é fofinha.
Inacreditavelmente, minha irmã não estranhou a Amy. Agiu como
se já a conhecia. Parece que os bebês tem mesmo um sentido diferente dos mais
velhos.
Logo após a janta, falei para os meus pais:
- Só temos um problema... aonde a Amy vai dormir?
- Como não temos
espaço na casa e sempre foi desse jeito... – Minha mãe começou. – Acho que ela
terá que dormir no seu quarto.
Sinceramente, fiquei feliz. Ela não poderia ter a mesma forma
de antes, mas eu não queria dormir longe dela. Nunca dormi longe do Kochi.
Abrimos a cama embaixo da minha e ela deitou-se lá. Apagamos
as luzes e então eu falei.
- Boa noite, Amy.
- Boa noite...
Senti certa hesitação em sua voz.
- Aconteceu alguma coisa?
- Sim... eu não quero dormir sozinha na cama...
- Tudo bem. – Falei escondendo o nervosismo que sentia
naquele momento. Mesmo que fosse o Kochi, ainda era uma menina. Muito bonita
por sinal. Liguei o abajur e continuei. – Você quer subir aqui pra cima?
Ela apenas assentiu com a cabeça.
- A cama é grande suficiente pra nós dois.
- Obrigada.
Como costume e sem nenhuma segunda intenção, coloquei meu
braço por cima dela. Ela também não pareceu se importar. Já estava mais calmo.
Ainda sentia quem ela era. A forma
poderia ter mudado, mas o jeito que nós nos tratamos não mudou.
- Boa noite, Amy.
Ela deu uma gargalhada quase inaudível.
- Boa noite, Ryu.

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